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João Sousa - Arquivo

Arquivo

  
    

Coisas da Praxe| Chulos & Putéfias | Impunidades | Bons Selvagens | Hipocrisias | Entradas & Saídas | Equívocos| Pedras no sapato | Bom Ano | Educação Alternativa | Falta de tempo...| O circo voltou


O circo voltou
24.02.2004
JBS

Após uns dias de ameno torpor, a discussão em torno das presidenciais regressou em tom exaltado, para a folia das hostes lusitanas.
Santana Lopes, depois de uma entrevista recente ao Expresso, admitiu a hipótese de se candidatar à Presidência da República, no caso de Cavaco desistir da corrida. Esta possibilidade já fez sorrir muitas criaturas que se assumem como «santanistas» convictas. Confesso que ainda estou para saber o que representa concretamente o «santanismo». Estamos a falar de uma nova corrente política? Exactamente a que é que nos referimos quando falamos em «santanismo»? A umas gaffes primárias quando o menino foi Secretário de Estado da Cultura, no início dos anos 90? A uma patética passagem pelo futebol português, na direcção do Sporting? À participação em edificantes programas televisivos como os Donos da Bola? À animação nocturna nos bares de Lisboa? À famosa plantação de palmeiras no areal da Figueira da Foz? Ou a um mandato à frente da CML marcado pela delapidação do património da capital (é ver no que estão a dar as obras no túnel do Marquês de Pombal...)? Será isto o «santanismo»?
Quanto a Cavaco Silva, apesar de surgir em primeiro lugar nas sondagens, os «analistas» já avisaram que o professor é demasiado activo para ocupar o cargo de Presidente da República. Dou inteira razão aos «analistas». Tudo na vida de Cavaco revela uma vasta tendência para o excesso de actividade. Especialmente em relação à arte da fuga. É recordar quando Cavaco fugiu da pasta das Finanças no governo de Sá Carneiro ou quando abandonou o cargo de primeiro-ministro em 1995, deixando o partido nas mãos do arquimedíocre Fernando Nogueira. Já para não falar na sua hiperactividade quando conduziu o país para a ruína económica, que passou pelo aniquilamento definitivo das indústrias, agricultura e pescas. Definitivamente, é muita actividade para apenas um candidato.
Ainda no PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, que já enviou alguns recados a Santana, não esconde um desejo subterrâneo de também se candidatar à Presidência da República. Por enquanto, a concorrência não se tem preocupado muito com essa possibilidade. Mas a verdade é que, se politicamente Marcelo é recordado apenas como uma nulidade – tendo sido o famigerado mergulho no Tejo o ponto mais elevado da sua carreira partidária –, já televisivamente o mesmo Marcelo é venerado por milhões de néscios que pautam as próprias opiniões em função das do professor.
Entretanto, para os lados do PS ainda não se destacou ninguém. Os socialistas têm andado demasiado entretidos com a possibilidade de Jorge Coelho vir a substituir Ferro na liderança do partido. Pessoalmente, não sei se essa será a atitude mais sensata. A verdade é que Jorge Coelho nunca foi muito dado a lidar bem com calamidades. E quando falo em calamidades, não me refiro àquele informe amontoado de sebo capilar que ele, até há pouco tempo, ostentava no fácies, e que – só por gozo – apelidava de «barba». Nem tão-pouco à cavernícola iliteracia com que o rapazola tantas vezes brindou o Parlamento. Falo sim da sua participação criminosa na derrocada do projecto do metropolitano no Terreiro do Paço ou da sua cobardia suína ao descartar-se de quaisquer responsabilidades no incidente da ponte em Castelo de Paiva.
Decididamente, a fasquia da liderança do PS vagabundeia por patamares profundamente rafeiros.
Finalmente, Mário Soares e Freitas do Amaral, dois exemplares remanescentes do período pré-câmbrico, ameaçam uma reposição emblemática das eleições de há dezoito anos – um salutar indicativo da condição putrefacta em que se encontra a democracia deste país. Porém, não será fácil destrinçar os projectos de ambos, já que, nos dias que correm, nota-se uma convergência ideológica inequívoca entre os dois. Especialmente em relação à defesa de argumentos senis – por exemplo, confundir a política de Paulo Portas com o extremismo de Le Pen.
Como se vê, o cenário, a dois anos das eleições, não é o mais animador. A qualidade dos putativos candidatos é pior que deplorável. De resto, um hórrido desfile de individualidades que nada têm para oferecer ao eleitorado, salvo a sua crónica e deformada megalomania.
Por estas razões, a escolha do candidato ideal fica mais complicada.
No entanto, que não restem dúvidas: entre Cavaco e Soares, o meu voto vai para o transformista Valéria Vanini.
Sem hesitações.


Falta de tempo…
28.01.2004
JBS

Tem-me faltado tempo para as práticas mais elementares, como actualizar-me devidamente nas notícias, ler mais do que trinta páginas por dia, passear os canitos lá de casa (seis quadrúpedes ao todo...), rir um pouco com o Canal Parlamento, ou assistir ao "Olá, Portugal" com a patológica frequência de outros tempos. Sei que não são desculpas plausíveis - e, no caso da última, uma infame aldrabice - mas foi o que arranjei.
Por isso, a escrita nesta página, já em si pouco profícua, ficará suspensa durante duas semanas.
Até lá, um grande abraço a todos.


Educação Alternativa
19.01.2004
JBS

1. Vivem-se dias de tumulto em Coimbra. Os «estudantes» organizaram um referendo para saber se a Queima das Fitas irá ou não ser realizada este ano. Para já, a súcia reinante tem respirado de alívio. De acordo com os resultados, cerca de 4500 «alunos» votaram no «sim». Segundo Vítor Hugo Salgado, o líder espiritual da massa estudantil conimbricense, “foi uma participação muito significativa de quase 6.000 pessoas na assembleia magna de voto” (note-se a terminologia pomposa utilizada pelo rapaz).
Após dois dias de referendo (!), concluiu-se que os «estudantes» terão de ir a uma segunda volta, a efectuar para a semana, para decidir se finalmente a Queima das Fitas é realizada parcial ou totalmente.
Eu, perante o quadro, coloco a singela questão: estamos a falar de uma universidade ou de um circo?
Interrogo-me desta maneira, pois pensava que o fundamento da vida universitária residia não no exercício exclusivo da pândega, mas sim no estudo e no crescimento cognitivo dos alunos.
Aparentemente estava errado. Quando falamos em «universidade», e em especial, na Universidade de Coimbra, devemos colocar de parte todos os princípios elementares da instituição académica.
Que não haja ilusões. Esta não é a Coimbra de Antero ou de Eça, não é a Coimbra das ideias brilhantes e dos debates políticos. Com escassas e honrosas excepções, Coimbra está transformada num tugúrio deplorável, povoado por milhares de acéfalos que vivem unicamente para o regabofe. Os alunos recusam-se a estudar e a pagar propinas, optando pelas noitadas, pelo culto da farra, pela apologia dos copos – não pelo gosto de beber, mas pelo prazer da bebedeira – e pela sangria vomitada no asfalto.
Como alternativa à formação académica, os meninos preferem levar à letra o conselho de Bertrand Russell, que dizia, em tom irónico, que para se ser um génio não se deve estudar rigorosamente nada. No meio da cretinice colectiva, a reitoria não tem qualquer autoridade, os professores são desconsiderados e os livros servem para equilibrar os pés das mesas.
E, enquanto em Coimbra reina a paródia, universidades como a de Aveiro ou a de Évora estão já cotadas como duas das mais dinâmicas na União Europeia. Este episódio do referendo é apenas mais uma confirmação de que, actualmente, a grande Questão Coimbrã resume-se à perpetuação do circo.
Lembro-me que, há uns meses atrás, José Tribolet, docente no IST, dizia que era preciso um 25 de Abril na Educação.
É melhor esquecer. Para os universitários de Coimbra, todos os dias são 25 de Abril – na acepção regabófica da data.

2. Os manuais de Português voltaram à ordem do dia. Depois da epopeia do Big Brother , houve um protozoário que sugeriu a inclusão de horóscopos no programa da disciplina.
A ideia parece-me com sentido. Não só confirma a imagem que retenho do tipo de fauna que habita o Ministério da Educação, como demonstra igualmente uma perspectiva futurista com uma certa lógica: transformar os futuros doutores em astrólogos e cartomantes.
Não está mal visto, não senhor. Com a área do ensino saturada de professores, esta gente sempre poderá vingar no negócio das ciências ocultas. Trabalho não falta.
Afinal de contas, o Professor Karamba e o Mestre Alaje não estarão cá para sempre.


Bom Ano
12.01.2004
JBS

Confesso que estava com medo de entrar em 2004. Como ter a ousadia de enfrentar um ano que os «especialistas» consideram como um dos piores que os portugueses terão a infelicidade de viver? Economia de pantanas, indústria em crise, desemprego em doses cavalares e o espectro de um terramoto que pode acontecer a qualquer momento. Aterrado com o cenário, deixei-me ficar em 2003 durante mais um pouco, e esperar para ver o que acontecia.
Para os outros, 2004 não começou bem. A classe política entrou numa altercação pública com a Justiça e com a Comunicação Social depois da publicação de uma notícia num «jornal de referência» (quem diria, um «jornal de referência»?), onde o bom nome do «nosso» Presidente da República aparecia envolvido na novela da Casa Pia. Felizmente para nós, Jorge Sampaio, uma criatura dotada de uma dose invulgar de lucidez e bom-senso, em vez de lidar com o assunto de forma comedida, resolveu transformar o caso num escândalo de proporções inconcebíveis.
E, falando em escândalos, aparentemente descobriu-se que há pedofilia nos Açores. Imagine-se, pedofilia nos Açores! O que é que vão inventar a seguir? Tráfico de crianças na Madeira? Não, decididamente há algo neste santo país que não está bem.
Finalmente, como se tudo isto não bastasse, o «meu» Benfica perdeu com o Sporting por um rafeiro 3-1. Sempre pensei que o Glorioso estava em crise. Nunca pensei, porém, que chegasse à suprema humilhação de perder com uma equipa andrajosa como o Sporting.
Enfim, como se vê, as coisas não estão nada fáceis. Por isso, decidi permanecer em 2003 por mais uns tempos e deixar 2004 para os outros que ainda têm fé e paciência para «anos novos».
Talvez um dia mude de ideias. Quem sabe? Por mim, rapazola de poucas exigências, basta a descodificação do Canal 18 ou uma afonia súbita e de improvável recuperação de Pedro Abrunhosa, para que eu pense no assunto. Até lá, bom 2003.


Pedras no sapato
15.12.2003
JBS

1. As afirmações de Maria Filomena Mónica têm causado considerável celeuma entre as hostes «bem-pensantes». A senhora, entre outras patifarias, é acusada de censurar o actual estado do Ensino português, onde não são poupados professores, alunos e burocratas do Ministério da Educação.
É óbvio que esta atitude de pôr em causa o establishment é completamente verberada pelas hostes «bem-pensantes».
Compreendo plenamente a indignação das hostes. As hostes não estão preparadas para encarar a sinistra realidade do ensino pintada por Maria Filomena Mónica. Um ensino que tem criado fornadas de professores incompetentes, e que, por sua vez, têm sido responsáveis pela gritante falta de cultura de milhares de alunos. Um ensino que permite que um docente termine as pedagógicas sem ter lido uma linha de Aristóteles ou de alguma vez ter ouvido falar de Coubertin. Um ensino que impinge aos alunos apedeutas como Mia Couto em detrimento de Garrett, Camilo ou Eça. Um ensino que se recusa a controlar as centenas de faltas injustificadas que os professores dão anualmente. Um ensino que observa, com a maior das passividades, ao encerramento a cadeado de uma universidade, por alunos que estão num curso há dez anos.
Um ensino que insiste em apostar no nivelamento por baixo em vez de reger o desempenho dos alunos pela referências de qualidade.
Este ensino, obviamente, só existe na cabeça de Maria Filomena Mónica. Ela que tenha mais em conta a sensibilidade das hostes «bem-pensantes», em vez de expor em público a sua imaginação distorcida.

2. José Mourinho é «arrogante», «pesporrente», e «antipático». Estes são apenas três dos variadíssimos elogios que a imprensa portuguesa gosta de utilizar para qualificar o treinador do FCP.
Longe de querer contrariar estes doces epítetos, coloco apenas esta questão: e o que é que isso interessa? Se o homem é bom a dirigir a sua equipa, é-me perfeitamente indiferente a sua personalidade. Correcção: neste caso, a personalidade de Mourinho até vem a propósito. A sua «arrogância», «pesporrência» e «antipatia» são estímulos imprescindíveis para o fabuloso desempenho da equipa, desde que Mourinho foi contratado pelo FCP.
Mas este é um senhor que os jornalistas portugueses nunca perdoarão. Primeiro, porque Mourinho confessou que não lê jornais desportivos – uma atitude que resume os pasquins à sua insignificância. E depois, porque Mourinho está a anos-luz do grosso dos treinadores portugueses. Enquanto estes se entretêm a palrar sobre tácticas, o estado da relva e as crónicas «limpezas de balneários», Mourinho passa os dias a trabalhar no duro e a construir uma equipa campeã. Dito doutra forma, muito trabalho e pouca conversa.
Obviamente, Mourinho é persona non grata num meio onde a mediocridade abunda em proporções inexcedíveis.
Por esta razão, o FCP encontra-se actualmente num plano que transcende as dimensões do futebol lusitano. E mesmo sendo um conjunto algo parco em recursos para poder ombrear com os «grandes» da Europa, a equipa tem demonstrado em campo uma postura que, no fundo, reflecte a personalidade do treinador: combativa, competitiva e plena de brio profissional. Por outras palavras, a antítese do que é o futebol nacional. A próxima eliminatória do FCP na Liga dos Campeões é contra o Manchester United.
Duvido que a equipa ganhe aos ingleses. Mas também duvido que faça má figura.

3. Nunca tive muita paciência para aturar bêbados. Especialmente à uma e meia da manhã.
Desta vez, são doze adoráveis criaturinhas que decidiram montar o estaminé mesmo debaixo da janela do meu quarto – o drama de viver num segundo andar – e fazer um chavascal digno de cavernícolas.
Arrasto-me da cama, abro a janela, e tento perscrutar os filantropos. São cinco «meninos» e sete «meninas», todos devidamente «entornados» e respectivamente «felizes» por estarem a fazer uma festa pública para toda a vizinhança ouvir.
Chego a achar o momento merecedor de aplausos. Depois, porém, decido colocar termo aos «festejos», chamando-lhes a atenção para o barulho. Sem hipóteses. As criaturinhas estão tão embrenhadas na orgia, que nem sequer me ouvem.
Então, pego no telemóvel e marco os três dígitos da praxe. O senhor que me atende diz-me que terei de ligar para a esquadra mais próxima. Desligo o telemóvel e questiono-me sobre a verdadeira utilidade do 112. Pondero seriamente em ir à esquadra, quando um dos «meninos» decide pedir desculpas pelo incómodo, prometendo que a festa passará para outros domínios territoriais. Meu dito, meu feito. A rapaziada desloca-se, então, do passeio para a placa central. Escusado será dizer que o gesto foi inútil, já que a pândega continuou.
Nesta altura, em que já não sobra qualquer vestígio de paciência, sinto-me seduzido a correr a caterva à pancada.
Então, lembro-me dos danos que um punho bem calejado pode fazer a um organismo debilitado pelas virtudes do álcool, e coloco a ideia de parte.
A última prenda que me faria falta nesta época pré-natalícia era uma noite passada nos calabouços.
Finalmente, quando os petizes se vão embora, respiro de alívio e tento retornar ao sono.
Minutos mais tarde, acordo com uma melga a miar em cima da minha cabeça.
Resultado da epopeia: cerca de três horas de sono.
“Noite, o que é?”, perguntava o outro. Deixo aqui a minha resposta: a noite é uma grandessíssima p*** do ca*****.
Na melhor das hipóteses.


Equívocos
9.12.2003
JBS

1. Segundo um bando de abutres que gostam de se auto-intitular “analistas políticos”, Pedro Santana Lopes é um poderoso candidato às próximas presidenciais, mesmo sem ter oficializado a sua candidatura. Colegas do PSD e algumas figuras do CDS/PP já manifestaram o seu apoio a Santana.
No outro lado do ringue encontra-se Cavaco Silva, um adversário de peso. A luta promete.
Santana tem tido um mandato algo sereno à frente da CML, e nem mesmo os cartazes infames que o rapaz fez questão de estampar na cidade fazem os lisboetas sentirem falta de João Soares. Para além disso, Santana tem aparecido com intensa regularidade na televisão.
Cavaco é o exacto oposto. O Professor tem estado ausente da cena política há quase dez anos e raramente aparece em público. A manobra, diga-se, faz bastante sentido. Com este interregno, Cavaco não tem apenas poupado os portugueses ao supremo flagelo de conviver com a sua imagem coçada e, de certa maneira, grotesca. A ausência do Professor tem levado o eleitorado a esquecer-se gradualmente da delapidação criminosa ao património nacional perpetrada durante o cavaquismo.
Mas Cavaco tem mais um trunfo, que pode ser ainda mais decisivo: o indissociável saudosismo lusitano, que graças às reminiscências dos tempos prósperos do «Cavaquistão», pode devolver aos portugueses a doce esperança de voltarmos a ser o «oásis da Europa».
Afinal de contas, a política portuguesa é pródiga nestes equívocos.

2. No passado fim-de-semana, foram conhecidos os adversários de Portugal para o Euro 2004. Para além da Espanha, os nossos “Tugas” vão defrontar a Rússia e a Grécia.
Isto, como já se esperava, foi suficiente para a euforia se instalar de forma desbragada. Desde os comentadores, aos “especialistas”, passando pelos dirigentes desportivos, as opiniões foram unânimes: Portugal não só é favorito no grupo, como dispõe igualmente de todas as condições para vencer o Campeonato da Europa. Tal como dispunha, de resto, no Euro 96 ou no Mundial 2002.
No meio do júbilo, os jornalistas quiseram saber a opinião do venerável Felipe Scolari, perguntando-lhe o que havia a esperar da selecção para este Europeu. Felipão respondeu convictamente que a selecção ia a jogar no Euro 2004 da mesma forma que tem jogado até agora.
As hostes, ante a resposta de Felipão, nem se mexeram. Eu percebo a inquietação das hostes. Se Portugal jogar da mesma forma, pode já contar com um empate 1-1 com a Grécia e uma derrota por 3-0 frente à Espanha.
Resta saber o que irá suceder no jogo com a Rússia.

3. Miguel Gaspar, crítico televisivo no Independente, diz que o novo canal da TV Cabo, intitulado SMS TV, merece a atenção de linguistas e sociólogos. Tudo porque o dito canal é feito de mensagens de telemóvel enviadas pelos telespectadores. Como se adivinha, a coisa resulta num espectáculo deplorável, exibindo semelhanças sinistras com o pior que é feito nas chating rooms da Internet. Os diálogos, esses, são compostos por mensagens sem sentido nem coesão. De quando em vez, aparece uma menina ultra-maquilhada para nos anunciar que podemos enviar uma anedota via-sms. Um exemplo dessa nobre iniciativa: “voces sabem o que um galo faz a porta de um talho? vai ver as galinhas nuas.”
Mas pior são mesmo as “conversas” que dominam parte considerável do tempo de transmissão. Fica aqui uma singela amostra:

“o peterpan esse paulo e o paulo barracas? responde olá personas. lisboa.”
“isto so serve pa gastar guita mas ya… na boa lol alguém konhece ptg? abraco. sk”
“quem és 2639 Peterpan”
“rafaela - bragança num consigo pensar em + nada sem ser em ti linda, ???????.”

Ou ainda:

“What is the matrix Nuno?bono”
“oi pituku…miau. Gatita69”
“oi Tanisha o k fazes Danny_lx”
“bono cala-te já ñ tens piada. Matrix#”
“ok bono friends forever… um dia destes podíamos nos conhecer! Boa idéia?! the_one tas por ai?bjs rpd. Drula”

«Linguistas e sociólogos»? Eu cá recomendaria mais um bom exército de neurologistas.


Entradas & Saídas
2.12.2003
JBS

1. Com a participação na comédia ligeira Love Actually, Lúcia Moniz entrou para o cinema estrangeiro pela porta grande. Um acontecimento que merece a devida vénia, não só pelo feito em si, mas também pela forma humilde com que a donzela encarou o projecto, contrastando assim com a postura de arrogância crónica dos nossos «actores».
Lúcia, para além de ter falado em português durante todo o filme, conseguiu fazer com que Colin Firth se visse obrigado a aprender a nossa língua.
Contudo, foi aqui que começaram os problemas. Firth, não satisfeito com o fugaz relacionamento com a nossa Lúcia, decidiu trocar Londres e visitar Portugal para ver a menina.
Um sinal pouco abonatório da inteligência de Firth, só equiparado pelo gesto de demência pura do realizador, que quis dar pormenores do nosso país, para inglês ver. E que mostrou Richard Curtis ao mundo? Bem, o pior cenário possível: um país consumido pelo culto da tasca, da javardice, dos burgessos, das velhas com bigode, das meninas saloias, da imensa sujidade, das ruas escuras e degradadas, da existência primitiva do lusitano comum.
No fundo, a imagem que Portugal transmite aos estrangeiros desde há décadas, e que insiste em permanecer. Para nosso horror, talvez para sempre.

2. Tenho ouvido comentários insólitos sobre o Big Brother. Aparentemente, há uma criatura chamada Joel, que entrou na casa, saiu, voltou a entrar e voltou a sair.
A perturbação é imensa, dado que, no meu tempo, quando os «portugueses» expulsavam um concorrente, o retorno ao tugúrio era impossível. Pelos vistos, as coisas já não se passam assim. A casa, segundo parece, tornou-se numa espécie de pensão, com os indígenas a entrar e a sair quando lhes apetece. O concorrente passa uma semana cá fora, dá uma vista de olhos, e trata de voltar lá para dentro.
O que levará esta gente a cortar com a sociedade e a optar pela vida num bunker? Será a renda da casa? Será o défice? Será o custo de vida? Será o aumento da criminalidade? Será a crescente incidência do vírus da sida? Será o número escabroso de acidentes de viação? Pior: será que a moda vai pegar?
Talvez as respostas apareçam nos próximos manuais de Português.

3. Sem que ninguém suspeitasse, George W. Bush foi passar o Dia de Acção de Graças com os militares americanos no Iraque. O momento foi de euforia generalizada.
Refira-se que o timing escolhido para a visita foi perfeito. Bush tem sido alvo de duras críticas por parte da opinião pública, e os incessantes ataques terroristas contra os membros da coligação davam a entender que uma retirada do terreno, à imagem do que sucedeu no Vietname, estava para breve.
Pelo contrário, Bush, com este coup de théâtre , não só galvanizou as tropas americanas como reforçou igualmente a ideia de que a presença dos aliados no Iraque está para durar.
A mensagem de Bush foi simples e demolidora: as tropas americanas não percorreram centenas de quilómetros até Bagdad para, depois de diversas baixas, do derrube de um ditador sanguinário e da libertação de 25 milhões de pessoas, baterem em retirada e entregar o país a um bando de assassinos.
Nada mau, para um «bêbedo imbecil».

4. Cenas orgásmicas em Lisboa, logo pela manhãzinha: um autocarro penetra o asfalto, num gesto de pura pornografia rodoviária, abrindo uma cratera com quarenta metros de diâmetro. O veículo pretendia servir como transporte “alternativo” para fazer face à greve da Carris. “Alternativo”, sem dúvida. A começar pela abordagem, em jeito da melhor ficção de Júlio Verne. De resto, uma novidade na forma de encarar o tráfego.
É claro que, depois do autocarro ter sido rebocado, as autoridades decidiram colocar uma pedra sobre o assunto. E isto porque, mesmo com as advertências de Gonçalo Ribeiro Telles, o que interessava saber era se Portugal ganharia a famosa Taça América.
Mesmo antes de se saber os resultados das candidaturas, o tom da populaça era de êxtase. Segundo os analistas, a Taça América traria mais dinheiro para o país do que o Euro 2004. Aliás, o melhor era até esquecer o Euro. E, quem sabe, deitar abaixo os estádios novos.
No final, porém, a vitória foi para Valência, e os portugueses voltaram a mergulhar na depressão do costume.
Pelo meio, ficou uma singela dúvida: alguém se lembrou de perguntar ao contribuinte se a Taça América interessava ao país? A lamentável resposta é negativa. O contribuinte não é ouvido nem achado para estas coisas. A não ser, claro, quando chega a hora de pagar.
Nada de novo. Esta é a política instaurada desde o tempo das insanidades megalómanas do Professor Cavaco, devidamente sequenciadas pelo Sr. Engenheiro. Uma política que pretendeu sempre transmitir a ideia de que Portugal estava na vanguarda económica. É óbvio que esta filosofia suicida só podia ter resvalado para um sistema de extremos sociais e económicos.
Vivemos num país paradoxal, entre os serviços de Saúde que não funcionam e os estádios de futebol que custam milhões. Entre o trabalhador médio que não tem dinheiro para um T0 e o traficante de droga que possui dezenas de apartamentos de luxo. Entre os carros de segunda mão que não se vendem e os Ferraris que estão todos esgotados. Entre o desempregado que come directamente dos contentores do lixo e os jantares sumptuosos do Jet Set . Tragicamente, este é o verdadeiro espelho de Portugal: um país que pretende ser rico e miserável, ao mesmo tempo.


Hipocrisias
25.11.2003
JBS

1. Aparentemente, o 11 de Setembro não ensinou nada aos antiamericanistas. Foi vê-los na semana passada, a marchar em Londres, aos gritos contra o satânico Bush. Tudo por causa da ocupação no Iraque por parte dos americanos. Claro que, para esta gente, os campos de concentração, valas comuns, execuções públicas de Saddam nunca foram problema algum. Eu, pelo menos, não me lembro de ver manifestações de semelhante envergadura contra os mimos providenciados pelo ditador iraquiano ao seu próprio povo – entre outras delícias, a utilização de armas biológicas nos curdos. Nem mesmo quando estive em Londres, onde encontrei um modesto grupo de refugiados iraquianos que pediam assinaturas para se julgar Saddam.
Mas a questão das manifestações, recheadas de hipocrisia e de dualidade de critérios, não é tão grave como se poderá pensar. Os protestos anti-ocupação em Londres rondaram cerca de cem mil pessoas. Ora, tendo em conta que na capital inglesa vivem cerca de oito milhões de pessoas, conclui-se que os números acabam por impressionar pouco. Esta ideia é igualmente reforçada por uma sondagem do The Guardian, exemplarmente lembrada por Alberto Gonçalves, no Correio da Manhã, e por Paulo Pinto Mascarenhas, no Independente , e que revela que a maioria dos ingleses apoia George W. Bush na campanha iraquiana.
É óbvio que por cá, os analistas de Esquerda não hesitam em criar um universo virtual, onde o mundo inteiro surge de mãos dadas contra a tirania neo-imperialista de Bush. Mário Soares é o primeiro, onde, entre outras barbaridades, qualifica a democracia norte-americana de “oligarquia plutocrática”. Estranho comentário, vindo de um dos principais cúmplices da elite que se instalou na política portuguesa desde 74 e que insiste em permanecer no Parlamento ad infinitum – é vermos o elenco dos candidatos às próximas presidenciais.
Outro dos ilustres pensadores é Miguel Sousa Tavares, que assinou um artigo deplorável no Público, onde verberou as acções militares norte-americanas, negando a existência da Al-Qaeda ou de organizações terroristas em solo iraquiano. Pena que Miguel Sousa Tavares não domine a língua inglesa. Caso contrário, teria lido um artigo publicado na Weekly Standard onde são divulgadas informações que provam o envolvimento de Bin Laden com Saddam Hussein em matéria de terrorismo.
Mas as críticas não se ficam por aqui. Por exemplo, o envio dos 128 militares da GNR para o Iraque tem sido também motivo de censura por parte da intelligentsia. Tudo porque o apoio dado à coligação é sempre visto como uma defesa dos interesses exclusivos dos americanos e não como um contributo decisivo ao combate anti-terrorista.
Este não deixa de ser um sintoma preocupante. A presença dos elementos da GNR devia ser encarada como uma demonstração de verdadeira amizade por uma potência que, desde 1945, tem zelado pela segurança do continente europeu. Mas não só. A ocupação militar no Iraque é fulcral, tanto para reduzir o poder das forças terroristas no Médio Oriente, como para evitar que ataques como o da semana passada, em Istambul, voltem a suceder. E isto porque, todos os atentados a que temos assistido são um sinal claro e preocupante que mostra que ninguém está imune ao terror sanguinário de Bin Laden e da sua tribo. A não ser, talvez, para os antiamericanistas, que continuam a pregar que o melhor é não fazer nada.
Pelo menos, até apanharem com um Boeing em cima da cabeça.

2. Germano de Sousa mostrou-se revoltado com a perspectiva do Governo aumentar o número de vagas do Curso de Medicina. Para o Bastonário, a medida é completamente demagógica.
Com este tipo de atitude, Germano de Sousa não parece apenas ignorar o Juramento de Hipócrates. O rapaz pretende igualmente ignorar o panorama crítico em que se encontra a formação de Medicina em Portugal.
Pela falta de vagas, o país exporta estudantes de medicina e para compensar as lacunas, importa médicos espanhóis.
Estas críticas do Bastonário reflectem, em grande medida, o receio crónico que os médicos, de uma forma geral, nutrem pela concorrência. Para eles, a possibilidade de haver mais médicos para dar conta do número crescente de enfermos é uma visão pouco animadora. Mais médicos, mais competitividade. E, claro, mais dificuldades para monopolizar a área. A perspectiva, portanto, não é nada agradável aos olhos do Bastonário.
Pessoalmente, acho que a atitude do Governo não só não é demagógica, mas como se mostra profundamente compreensível e justificável perante o cenário que se avizinha a médio prazo, com o número de reformas dos médicos portugueses a aumentar, não havendo depois uma reciclagem. Naturalmente, esse é um cenário a evitar. Caso contrário, o custo será incomensurável. E a pagá-lo estaremos todos nós. Mais cedo ou mais tarde.

3. Os “tuguinhas” foram apurados para o campeonato europeu de sub-21, depois de eliminar a França, e decidiram festejar nos balneários à boa maneira portuguesa. Resultado: paredes destruídas, tecto desfeito e, brinde made in Tugolândia, seringa devidamente exposta para francês ver.
Pedidos de desculpas pelo cenário pós-apocalipse? Nem pensar.
Com sorte, algumas explicações. Por exemplo: a malta estava feliz. Claro. Já se está a imaginar o que os rapazolas fazem de cada vez que regressam a casa. Mala no chão e pontapé espetado no queixo do mordomo. Depois, cabeça da cozinheira rachada com uma garrafa de champanhe. Logo a seguir, caviar servido e meticulosamente estampado nas paredes. Ao deitar, lençóis rasgados e cama partida. Tudo feito com muita felicidade. Outra justificação? Bem, a malta é de origem pobre. Evidente. Já consigo visualizar o nosso Mantorras perante a improvável vitória do Benfica no campeonato: conjunto de granadas à volta da cintura, a soltar rajadas de metralhadora para o tecto. Tal e qual como fazem as criancinhas angolanas quando estão felizes.
Como é óbvio, tanto uma explicação como outra, não servem e tresandam a displicente hipocrisia. Não é a felicidade extrema nem a modesta ascendência de alguns dos meninos que podem justificar a realização de uma selvajaria daquelas.
E mesmo que justificasse, o mínimo que se esperava era um pedido de desculpas públicas, pela péssima imagem prestada pelos trogloditas.
Contudo, não só não foram tomadas medidas pedagógicas por parte da Federação como ainda houve tentativas de insinuar que os actos de terrorismo não foram da autoria dos meninos, mas sim dos franceses, com o intuito de incriminar os portugueses.
Porém, a explicação foi prontamente refutada, por ironia, através de uma passagem bem esclarecedora de um dos “tuguinhas”, que gritou euforicamente: “Foi a festa de nós”.
Agora não restam dúvidas.


Bons Selvagens
18.11.2003
JBS

1. A história passou-se há cerca de três anos. Quatro alunos cadastrados, depois de terem colocado a respectiva escola a ferro e fogo, foram enviados para a esquadra mais próxima. Quando os pais chegaram, os meninos queixaram-se de terem sido agredidos pelos polícias. Os pais, porém, quando confrontados com a inverosimilhança das acusações dos petizes, não se mostraram muito interessados em apresentar queixa contra a polícia. Portanto, esperava-se que a história ficasse por aqui. Erro crasso.
Logo após ter tomado conhecimento do sucedido, uma professora decidiu levar os polícias à Justiça. Os agentes, por sua vez, tentaram persuadi-la, mostrando que não tinha havido agressões de qualquer espécie, e que os meninos estavam a mentir. A professora, porém, perfeitamente compenetrada de que os seus alunos falavam a verdade, foi-se queixar ao Fórum Justiça e Liberdade. Tudo para mostrar que os direitos constitucionais de quatro jovens haviam sido violados pelos agentes da autoridade.
O caso seguiu para tribunal, e, enquanto aguardavam julgamento, os polícias ficaram suspensos. Esta situação, entre outras coisas, provocou uma redução considerável no ordenado dos agentes. Mesmo assim, a professora, filiada no Bloco de Esquerda, manteve-se irredutível e quis levar o processo até às últimas consequências. Tudo em nome da defesa dos direitos humanos.
A suspensão dos polícias durou três anos, até à primeira sessão de tribunal. Contudo, o julgamento teve de ser adiado, visto que dois dos quatro meninos encontravam-se detidos.
Quando, finalmente, todos os intervenientes do processo puderam comparecer, os polícias foram ilibados. Escusado será referir que nunca houve agressões por parte dos agentes. A direcção da escola sabia disso. A Polícia sabia disso. Até os pais dos meninos sabiam disso.
No entanto, graças à intervenção miserável de uma professora bloquista e assumidamente anarquista, as vidas dos polícias sofreram danos irreparáveis. A nível profissional, moral, financeiro e familiar.
Tudo porque uma professora fez questão de proteger quatro facínoras cadastrados. Porque para esta criatura “politicamente correcta”, os meninos não eram criminosos mas sim vítimas. Vítimas, claro, do Sistema, da sociedade, de todos nós, que oprimimos diariamente os “bons selvagens” através da disciplina, da ordem e da autoridade. Dito de outra forma, se há um assalto, a vítima é o assaltante. Se há uma agressão, a vítima é o agressor. Se há um homicídio, a vítima é, claro, o homicida. O bom é mau e o mau é bom. E quem tenta combater o crime acaba sempre por ser apodado de criminoso.
É esta a filosofia imposta por associações radicais como o Bloco de Esquerda, o SOS Racismo e o Fórum Justiça e Liberdade, e que vai pervertendo completamente os valores éticos e morais da sociedade. Porque são estas mesmas associações que tratam de proteger os criminosos e de perseguir os agentes da autoridade. De resto, um exercício devidamente apoiado por uma parte considerável da comunicação social, que não mostra qualquer pejo em condenar as acções da Polícia.
Por isso, era fundamental que se começasse a encarar a criminalidade de outra forma. Sem receios e com o máximo de frontalidade. Acima de tudo, incisivamente e sem misericórdia para com os delinquentes.
Porque é bom não esquecer que crimes como o de terça-feira passada, em que um agente da PSP morreu depois de ter sido intencionalmente atropelado, têm de ser punidos com pesado castigo. Em nome da ordem e da liberdade.
A polícia, para nos proteger, terá primeiro de ser protegida. Por todos nós.

2. Tal como Mota Amaral, não fui convidado pelo sr. Pinto da Costa para a inauguração do famigerado Estádio do Dragão. As razões são diversas: não sou do FCP, não costumo ir a estádios de futebol, e, por último, não conheço o sr. Pinto da Costa de lado nenhum. Mas as semelhanças com o casto Mota Amaral ficam-se por aí. Porque, ao contrário dele e dos restantes stand-up comedians do Parlamento, eu não fiz do acontecimento um drama nacional. Não fui convidado e pronto. Não há crise.
Os políticos, por sua vez, mantendo-se fiéis ao recente ciclo de amuos da Assembleia, fizeram questão de se mostrar indignados perante a vilania perpetrada por Pinto da Costa e sua tribo portista.
Acho que não vale a pena discorrer sobre a boçalidade e provincianismo patológico de Pinto da Costa. A criatura tem tanto de excelente dirigente desportivo como de labrosta inveterado. É vermos o domínio futebolístico do FCP nas últimas duas décadas, em simultâneo com o crescendo de pelejas selváticas entre os dirigentes desportivos, brilhantemente instigadas por Pinto da Costa.
Porém, relativamente a esta novela patética, o papel do FCP é pouco relevante. Para mim, o que é assaz vergonhoso é a atitude dos políticos. Em vez de tentar debater assuntos pertinentes, preferem ocupar o tempo com vacuidades. Tempo que, leia-se, é regiamente pago pelo eleitorado.
A atitude de Pinto da Costa foi inquestionavelmente sórdida.
Mas, em abono da verdade, serviu para mostrar o que a nossa classe política vale: rigorosamente nada.

3. Eles bem se esforçam. Esforçam-se por ganhar jogos. Esforçam-se por marcar golos. Por marcar penalties. Esforçam por ser eficazes. Esforçam-se por ser humildes. Esforçam-se por servir a Nação. Esforçam-se e continuam a esforçar-se. Mas, por mais que tentem, não há maneira da rapaziada atinar com a bola.
Contudo, não nos devemos perturbar com isso. A incompetência da Selecção já é antiga e, a poucos meses do Euro, é pouco provável que o achaque da trupe se altere. De facto, desde 84 que Portugal não tem jogadores à altura de um Europeu de futebol. Aliás, esse deveria ser o primeiro ponto a analisar pelo governo de Guterres, antes de se ter apostado na organização do Euro 2004: serão os nossos jogadores suficientemente bons para corresponder com mestria à realização de um campeonato da Europa em Portugal?
Feita a questão crucial, a conclusão só poderia ser uma: não, de modo algum. Mas, como é lógico, o nosso querido engenheiro recusou-se a aceitar o facto e, em nome da vanguarda lusitana – que só existia na cabecinha dele – decidiu sacrificar o país inteiro, substituindo a Saúde e a Educação por estádios de futebol.
Resultado: agora temos as arenas, mas faltam-nos os gladiadores.
Parabéns, Engenheiro Guterres.

4. Jantar romântico em Aveiro. À luz de velas. Ambiente soberbo, refeição magnífica. E, claro, a companhia perfeita. Tudo a correr bem, como há muito ansiava. Fala-se disto, fala-se daquilo. Tudo em tom tranquilo e despreocupado.
De repente, um ruído assustadoramente familiar escapa das colunas de som. Troco olhares angustiados com a minha musa.
“Não pode ser”, penso eu, perfeitamente incrédulo. À medida que o som ganha contornos escabrosos, o estômago rodopia descontroladamente. Escuto com atenção suicida e confirmo o pior: João Pedro Pais acaba de interromper a janta e, num laivo de terrorismo sonoro, fustiga o meu aparelho auditivo com um estampido horrendo. Os tímpanos pedem clemência. Mas o belzebu dá-lhe ainda com mais alento. Acordes sinistros, vozear pestilento. Música transformada em ruído, como diria Kundera, em jeito eufemístico.
O jantar, esse, fica condenado. Irremediavelmente.
E eu, perdido nas labaredas da dor, tento ainda perceber como é que este projecto larvar de cancioneiro conseguiu vingar na música sem antes ter sido engaiolado.
Sem sucesso. Pura e simplesmente não entendo. Também, já não interessa. Sinto que o fim está próximo.
Mas, quando o paroxismo parece estar para breve, a música desaparece, abruptamente silenciada pela publicidade.
Refeito do pesadelo, tento ponderar. Sem hipóteses. O choque é imenso e não deixa espaço para reflexões.
Apenas uma, talvez: no próximo jantar, ficar perto do parapeito. Para o que der e vier.


Impunidades
10.11.2003
JBS

1. Enquanto o País andou entretido com a detenção do monóico José Castelo Branco, a notícia do arquivo do processo das «viagens-fantasma» dos deputados foi perfeitamente ignorada.
Nada que espante. Os escândalos no jet set são sempre mais lucrativos à imprensa do que os pecadilhos dos políticos. Por isso, a Pátria chafurdou deliciada na notícia da prisão do androgínico Castelo Branco e ignorou por completo um episódio bem sintomático da criminalidade que grassa na nossa classe política.
Aparentemente, o cândido Mota Amaral e o impoluto Souto Moura resolveram arquivar o processo, com a condição da devolução do dinheiro “extraído” pelos deputados. É claro que o dinheiro ainda não foi devolvido, e agora, com o processo arquivado, é pouco provável que os deputados restituam o que devem.
Este capítulo ilustra de forma assustadora a cumplicidade entre a Justiça e os políticos em matéria de corrupção. O Ministério Público sabe que o dinheiro foi retirado e sabe igualmente quem o retirou. Mesmo assim, não foram apuradas quaisquer responsabilidades.
Se vivêssemos num Estado de Direito, saqueadores como Guilherme Silva e Miranda Calha não seriam apenas demitidos e proibidos de voltar a exercer funções políticas. Em casos como este, os criminosos seriam obrigados a devolver o dinheiro usurpado e a ir a tribunal para serem julgados e encarcerados com penas duríssimas. Não só pelo crime em si, mas pelo exemplo sórdido que deram à Nação.
Mas já que nada disso será concretizado, o ideal seria o eleitorado exigir que os deputados realizassem as tais viagens de uma vez por todas. E que os bilhetes fossem só de ida.

2. O sempre lúcido Álvaro Cunhal assinou um artigo no sempre lúcido Avante! , onde, entre outras preciosidades, considerou os EUA como a principal potência de terrorismo no mundo. Para além disso, Cunhal com idêntica lucidez, referiu que o combate ao imperialismo norte-americano terá de ser executado com êxito por jóias democráticas como China, Cuba, Vietname, Laos e Coreia do Norte.
Eu, com a minha fé inteiramente depositada na sabedoria quase centenária de Cunhal, só espero que a vitória sobre o “imperialismo” norte-americano seja célere e eficaz. É que nós, os oprimidos pelo famigerado “imperialismo”, vivemos em constante terror e, simultaneamente, com inveja das prodigalidades democráticas desses regimes, onde os povos desconhecem as expressões “censura” “campos de concentração”, “torturas” ou “execuções sumárias”. Expressões as quais, nós, os oprimidos pelo sinistro “imperialismo”, sentimos na pele.
Em relação ao terrorismo, é estranho que Álvaro Cunhal não se tenha lembrado das informações cedidas por Tarik Aziz, publicadas no “imperialista” Washington Post . Aziz confessou nos interrogatórios efectuados que a França e a Rússia haviam prometido a Saddam o adiamento da guerra, impondo vetos através do Conselho de Segurança da ONU. Tudo em nome da paz? Nem por sombras.
A posição anti-belicista da França e da Rússia deveu-se essencialmente à necessidade de perpetuar o comércio petrolífero com o Iraque, pactuando assim com o regime sanguinário de Saddam. Os negócios entre o Iraque e empresas como a TotalFinaElf, Lukoil, Zarubezhneft e Mashinnoimport eram brutais, e não podiam ser perturbados pela presença dos EUA em terreno iraquiano.
Os Esquerdistas tinham razão. O grande interesse no Iraque foi sempre o petróleo. Que o digam os franceses e os russos. E escusado será referir que, ao negociar daquela forma, a França e a Rússia foram cúmplices e financiadoras directas da ditadura de Saddam e da respectiva instigação ao terrorismo no Médio Oriente.
Mas para Álvaro Cunhal estes dados não passam de irrelevâncias. Fazer acordos com carniceiros a troco de petróleo não é tão censurável como combater o terrorismo através de uma intervenção militar.
É sempre reconfortante saber que um indivíduo que hoje completa noventa anos de vida consegue manter a mesma lucidez de sempre.

3. Fechar universidades com cadeados simboliza ódio à cultura. A teoria é de Henrique Monteiro, que escreve um excelente artigo sobre o assunto no Expresso. Diz Monteiro que os meninos ao trancarem os portões das universidades não só manifestam aversão ao conhecimento como demonstram também sinais preocupantes de totalitarismo e de intolerância. O panorama não é novo. Esta é a exacta intolerância que os filhos da Revolução de Abril mostram desde 74.
Não digo com isto que os académicos devam ser obrigados a encarar o pagamento obrigatório das propinas de cara alegre. Mas substituir o diálogo – que faz de nós seres civilizados – pela prepotência de encerrar um estabelecimento de ensino, parece meio caminho para a barbárie. Barbárie essa que demonstra bem a aversão selvática que o grosso dos académicos nutre pela cultura.
Por exemplo, na última quarta-feira, enquanto os estudantes se manifestavam contra o pagamento obrigatório das propinas, um jovem urrou furiosamente: “Sou contra o pagamento de quaisqueres propinas!”
É preciso dizer mais?

4. Na semana em que a Humanidade foi presenteada com um eclipse lunar, os portugueses decidiram brindar o País com 4424 acidentes de viação. É este o cenário rodoviário lusitano. Dezenas de mortos, milhares de feridos, famílias destruídas. Todas as semanas. Sem excepção.
Uns culpam o álcool, outros dizem que foi a chuva. Outros afirmam, com o ar mais sério do mundo, que o poste foi contra o carro, e não o contrário.
Este cenário de perfeita guerra civil não perturba apenas pela carnificina em si, mas pelas diminutas dimensões geográficas do nosso país. Somos poucos, mas morremos muitos. Tudo em nome da pressa de chegar a casa, de não esperar pelo sinal vermelho, de não abdicar de três garrafas de whisky antes de conduzir.
E, face à demissão da Justiça nesta matéria, a impunidade nas estradas tem tendência para continuar. Todos os dias, todas as semanas.
O próximo eclipse lunar está previsto para 4 de Maio do próximo ano. Quantos terão morrido nas estradas até lá?


Chulos & Putéfias
3.11.2003
JBS

1. O enredo é desaconselhável a cardíacos. O advogado do único pedófilo português acusa o Bastonário da Ordem dos Advogados de bombista. O Bastonário da Ordem dos Advogados quer a demissão do Procurador Geral da República. O Procurador Geral da República é insultado pelo maior partido da oposição. O maior partido da oposição é insultado pelo país. A classe política indigna-se, não pela violação de menores mas pela violação do Segredo de Justiça. O Ministério Público é alcunhado de “pidesco”. Pelo meio, há almoços, cartas fechadas, abertas e “entreabertas”. O Presidente da República apelida todo este processo de “novela judiciária”. O povo anseia por justiça imediata. A justiça tarda, porque o psiquiatra do único pedófilo português diz que o paciente sofre de amnésia. Porém, descobre-se que o psiquiatra não é reconhecido pela Ordem dos Médicos e que até possui um cadastro de fazer inveja ao cliente.
Finalmente, a Provedora da casa mais famosa do país promete que um terramoto está para breve.

2. O infame acena com a promessa da “mística” e a massa aplaude efusivamente. E assim se ganham as eleições. Nada de novo. O Benfica é este circo há vinte anos. E será assim por mais vinte. Tudo bem, desde que haja a “mística”.
Para mim, um céptico inveterado, a história da “mística” dá vontade de rir. A “mística” pertence ao passado e lá permanecerá para sempre. Nos dias que correm, a “mística” do Benfica é outra: a “mística” da corrupção, do saque e da lavagem de dinheiro da droga. Tudo para a folia dos chulos do costume. A começar nos dirigentes e a acabar nos jogadores e respectivos empresários. É vermos os lindos exemplos do encarcerado Vale e Azevedo ou do recém-eleito Filipe Vieira, suspeito de corrupção.
Digo-vos: fui do Benfica, chorei pelo Benfica, deprimi-me pelo Benfica. E agora, esgotado, cheguei ao fim. Ponto final.

3. Fidel Castro, a última das grandes referências do ideal comunista, afirmou que Arnold Schwarzenegger tem mais músculos no corpo do que no cérebro. O humor da Esquerda tem destas coisas. É suposto rir, mesmo sem ter piada nenhuma.
A afirmação de Fidel é uma redundância. Schwarzenegger, como qualquer ser humano, tem mais músculos no corpo do que no cérebro, simplesmente porque o cérebro não é um músculo, mas sim um órgão. Por isso, a “gracinha” de Castro era perfeitamente evitável.
Contudo, interessa falar um pouco de exercício cerebral. O iluminado Fidel Castro, a versão cubana do “Grande Timoneiro”, podia, e devia, questionar-se sobre a sua inteligência quando confrontado com as brincadeiras que tem andado a fazer em Cuba desde 59. A inteligência de substituir uma ditadura por outra. A inteligência de prostituir o país, a troco dos subsídios da URSS. A inteligência de conduzir ao corte das relações económicas com a maior potência mundial, em 61. A inteligência de quase provocar uma guerra nuclear, em 62 e em 84. A inteligência de perseguir o povo com censuras, campos de concentração e execuções sumárias. A inteligência de levar centenas de milhares de cubanos, incluindo a própria filha, a fugir clandestinamente para o “Grande Satã”. Já para não falar da inteligência de “exportar” a Revolução para Angola e Etiópia, causando um rasto de fome e destruição que ainda hoje vigora.
Fidel que reflicta bem antes de meter a inteligência alheia em discussão.

4. Durão foi e voltou. Foram quatro dias de intensas negociações. Segundo consta, Angola precisa da nossa ajuda. E Durão, com o eterno complexo do colonialismo, afirmou com a cabeça. Pena que Durão se tenha esquecido que Angola, ao contrário de Portugal, é um dos mais ricos países do mundo. De resto, essa continua a ser a grande quimera africana. Pensa-se que África é pobre porque os povos vivem na miséria.
Grande erro. Apesar dos fundos internacionais, os povos vivem na miséria, porque os dirigentes africanos, de uma forma geral, exploram os respectivos países apenas em prol das suas próprias necessidades.
Vejam-se alguns exemplos: a simpática criatura que diz ser Presidente de Angola é um dos homens mais abastados do mundo. Isto, com o povo esfomeado, aos portões do palácio.
Nino Vieira, que deixou aos guineenses um legado calamitoso, tem nas suas contas 650 milhões de contos. Dado curioso, esse é o exacto montante da dívida externa da Guiné.
Robert Mugabe, que assassina brancos e persegue pretos, espalha a sofreguidão por todo o Zimbabwe. Ao mesmo tempo, a linda mulher de Robert, Grace, passeia com regularidade nas lojas mais caras de Paris, comprando roupa e calçado de luxo.
E este é um cenário vulgar por praticamente toda a África.
Solução para o pesadelo? Porque não expulsar e condenar devidamente os caciques e colonizar o continente de novo? Civilizadamente. Sem violência. Sem chacinas. Sem correntes, nem chicotadas. Com democracia. Porque, neste momento, é essencialmente democracia que falta aos povos de África. O continente continua a ser fustigado por um sinistro conjunto de ditaduras, onde predomina a corrupção, a pilhagem e o sangue. E enquanto o panorama persistir, são sempre os déspotas a enriquecer.
Porque o povo, esse continua a dar tudo e a receber pouco. Ou nada.


Coisas da Praxe
28.10.2003
JBS

1. Aparentemente houve um caloiro qualquer que não gostou de ser praxado. O menino, ao querer integrar-se no “ambiente académico”, foi abusado pelos veteranos. Logo a seguir, houve uma série de vozes iradas que manifestaram profundo repúdio pelo Carnaval das praxes, alegando que ali não há tradição nenhuma.
Mas é óbvio que há tradição: tradição da estupidez, da bestialidade, do humor abrutalhado, da provocação barata, da humilhação selvática, da sexualidade ajavardada. Tudo isto é o reflexo da universidade portuguesa. De norte a sul, o mundo académico simboliza uma escola de perfeita delinquência.
Por isso, a surpresa do caloiro ao deparar-se com um cenário destes até me parece um tanto absurdo. Os iniciados já deviam saber o que lhes espera ao ingressarem num curso superior. E o medo da alienação por parte dos colegas não pode servir de desculpa para a tolerância das praxes.
Alguma vez eu consentiria ser tratado daquela forma só para ser “integrado”? Para quê? Para ganhar a “amizade” de uma caterva de burgessos que durante um mês me tratam abaixo de esterco? Brincamos, com certeza.
É nestas alturas que digo: antes só do que mal acompanhado.

2. A demência londrina não pára. Depois dos casos preocupantes de David Blaine e de Mark McGowan, a capital inglesa tem agora uma personagem vinda directamente da banda desenhada. A criatura dá pelo nome de Homem-da-Serra-Eléctrica, veste-se à super-herói e deambula por Londres, destruindo todos os bloqueadores de automóveis que encontra. Diz o rapaz que os bloqueadores são símbolos de abuso de poder e, por isso, devem ser combatidos.
Se a moda pega aqui, a EMEL que se cuide.

3. Segundo consta, a nação anda deslumbrada com as virtudes artísticas do actor Rogério Samora. O rapaz não cessa de ser entrevistado e não há ninguém que lhe poupe elogios. Samora é, actualmente, visto como um ícone incontornável da expressão dramática lusitana.
Eu, para fugir um pouco à norma, digo apenas isto: Rogério Samora não é somente um péssimo actor. Samora, que tem a aparência de um assíduo frequentador do Casal Ventoso, é um ser boçal, ordinário, arrogante, nata absoluta da javardice popular.
De resto, Rogério Samora representa bem o que é o teatro português: um mundinho insuportável de criaturas reles que vão fazendo com que as salas de espectáculos fiquem cada vez mais vazias.

4. Esgotado, faço uma pausa da letárgica entrevista a Jorge Sampaio e mudo para o já crónico Vícios & Virtudes, onde Luísa Castel-Branco e Cinha Jardim discorrem avidamente sobre futebol. Com o rabo entre as pernas, volto à entrevista de Sampaio.


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